"O
Estado que gera a regra é diferente daquele que a
regra gera". (Nietzsche)
Treze
de julho de 2001. Sexta-feira. Sexta-feira 13. Com muita
tristeza escrevo acerca da situação na Bahia.
Dizer que chegamos à beira do caos seria ridículo,
pois já despencamos barranco abaixo. O pânico,
o terror toma conta das ruas nas principais cidades baianas,
insegurança gerada pela falta de capacidade da administração
estatal, corroborada pelo grau de irresponsabilidade de
nossos governantes. Aliado ao temor do apagão, eis
que surge novo período obscuro de nossa história.
Após o fatídico 16 de maio de 2001, em que
estudantes secundaristas, universitários, políticos,
sindicalistas, dentre outros, foram reprimidos barbaramente
no campus da Universidade Federal da Bahia, em Salvador,
vivemos dias de selvageria, como se tivéssemos retornado
a tempos pretéritos, à época da vindita
privada.
As notícias veiculadas no País pelos diversos
meios de comunicação retratam, não
raro, a realidade somente da capital do Estado, olvidando-se
de outras cidades do interior. No segundo maior município
baiano, Feira de Santana, o terror se proliferou em progressão
geométrica, principalmente na tarde de quinta-feira
(12/07/01). Arrastões pelo centro da cidade, saqueando
casas comerciais, agências dos Correios, joalherias,
lojas de departamentos, sendo instaurado o desespero na
população feirense, desprotegida pelo aparato
estatal, pois que seus agentes destinados a resguardar a
sociedade, estavam (e estão, até a presente
data) em greve. Já dizia o provérbio: quando
o gato sai, os ratos fazem a festa...
A Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), localizada
ao lado do 1.º Batalhão da Polícia Militar,
lugar este onde inúmeros PM´s estão
aquartelados, não teve condições de
ter suas aulas ministradas, visto que as circunstâncias
eram das piores. Há suspeitas, inclusive, de que
o Conjunto Penal de Feira de Santana vai "virar"
(conforme a gíria dos detidos naquele recinto), ou
seja, que os detentos se rebelarão (o que, lamentavelmente,
não é novidade em nosso País). Em Salvador
os agentes penitenciários estão apoiando a
greve dos policiais militares, tendo em vista que, sem os
agentes repressivos, não possuem segurança
na Penitenciária Lemos de Brito. Isso sem se falar
da greve dos vigilantes na capital baiana, em Feira de Santana,
e, decerto, em outras cidades do interior.
Ainda em se tratando de Feira de Santana, também
chamada, carinhosamente, de Princesa do Sertão, os
ônibus passaram a circular apenas até às
20 horas, as agências bancárias fecharam, as
Escolas Municipais estão com as aulas suspensas,
bem como os colégios particulares não estão
funcionando. Ao que parece, perdemos a majestade... Em meio
a todo esse quadro horripilante, deparo-me frente ao ilustre
Presidente da República, via aparelho televisor,
afirmando que o Governo está funcionando com energia
ante aos problemas. Todavia, creio que o apagão já
vitimou a governança. Pior do que isso é o
querido Galvão Bueno dizer que a Seleção
Brasileira está vivendo um drama, pois há
seis partidas não sabe o que é vitória.
Claro, se o time canarinho estivesse bem, vencendo todos
os jogos, teríamos de volta (e já a deixamos?)
a política do pão e circo.
A liberdade de ir e vir, o Estado democrático de
Direito, as garantias da Lei Maior, todas elas foram deixadas
de lado. Os policiais aquartelados aparecem em matérias
jornalísiticas todos eles encapuzados, com armas
em punho, prontos para o combate. Nós, cidadãos
de bem, batemos em retirada, procurando refúgio em
nossas residências. Os marginais, criminosos, como
em um filme apocalíptico, tomam conta da cidade,
fazem arruaças, quebram carros, arrancam retrovisores
dos veículos, invadem lojas, destroem o que podem,
disseminam o pavor. Nós, homens e mulheres de bem,
vitimados. Vitimados pela sensação de insegurança,
cujo responsável primeiro é o Estado. "Só
se vê na Bahia", ressalta a propaganda recheada
de imagens belíssimas, mais parecendo o Éden.
Porém, trata-se de um Estado que clama por renovação.
Renovação no âmbito, político,
social, econômico, dentre os mais diversos. A saúde,
a educação, a segurança pública,
tudo isso está um verdadeiro caos na Bahia. Graças
a Deus, a era ACM acabou. Definitivamente, foi por terra.
Ao menos de fato. Temos agora a oportunidade e missão
de melhorar o que um dia já foi denominada "Boa-Terra".
O que estamos vivendo é reflexo dos desmandos dos
governantes, dos detentores dos meios de produção,
daqueles que não se preocupam em melhorar a situação
brasileira. O eminente jurista baiano, Calmon de Passos,
sabiamente, afirma que onde a decisão do conflito
se entrega à força dos competidores, o mais
forte tem sempre razão. Espero, sinceramente, que
tais momentos e fatos presenciados e/ou noticiados nos sirvam
de lição, pois a população já
se cansou das injustiças que lhe são impostas.
Sejamos cientes da nossa realidade, da inversão de
valores evidenciada, das mazelas sociais sofridas e do caminho
que estamos por traçar para os dias futuros, caso
assim continuemos a proceder. Damos mostra, em verdade,
de estarmos vivendo uma guerra civil, racionando energia
elétrica, com linhas telefônicas congestionadas,
saques e mortes nas urbes. É o resultado que temos
de quando o Direito se esquece da sociedade. A sociedade,
então, se vinga, e se esquece do Direito.